quinta-feira, março 31, 2005

Hamlet, ou Fenómeno da teoria da russificação / PG 18

Гaмлєт, aбо феномен дaтського кaцaпiзма

Oleksander (Les’) Podervyanskiy
www.ultima.te.ua
http://www.doslidy.kiev.ua/stories.php

Primeiro Acto

Costa do mar. Ouvem-se gritos libertinos dos pássaros, uivo das focas e outros sons, emitidos por variada caralhada marítima. Na praia aparece o Hamlet, príncipe da Dinamarca, vestido de colete tolstoiista e calças de lona. Hamlet tem um bonito e fino sinto de cabedal. Ele está descalço, barbudo e tem a cara de fanchono. Nas mãos segura um pau bem grande.

Hamlet: ‘To cansado de nadar p’ra caralho. Ou então nadar um pouco? Nadar ou não nadar? Perguntas essas de caralho, me fodem. Será que devo, sem vagar, baixar as calças e de mariposa com caralho nadar, até que fico cego de cansaço? E depois? Das consequências possíveis pensar? Apenas uma vez e caralhão, o seu fim rasteja com sorriso malicioso. Constipação, hemorróidas, borbulhas no rabo, as hematomas da seringa, os médicos, e como fim – a campa húmida... Em cima dela, Ofélia suja e mal cheirosa e montinho das margaridas. E inscrição: aqui foi sepultado, cabrão que adorava nadar. Não, essas cenas, foder eu quero no nariz e boca.
(Hamlet cospe para o mar e fode o com pau. Aparece Cláudio, o tio larilas do nosso príncipe).

Cláudio: Mon cher Hamlét! Vamos para o gabinete. Eu tenho para si um doce lindo. Um doce maravilha, Chupa – chups.
(Cláudio mexe nojentamente os seus lábios, imitando um doce lindo de caralho. Naquele mesmo momento, sai do mar um Fantasma, embrulhado com lençóis sujos).

Fantasma: Não acredita meu filho neste paneleiro. O doce este, ele meterá no teu cu.

Cláudio: Ah – ha – ha!!!
(Foge).

Fantasma: Tu podes ver, este filho duma puta tive medo. Ele mijou por cima de mi, numa caçada. Com mão de traidor, meteu o caralho sujo, no meu ouvido. O meu corpo lindo foi atacado por gangrena. Eu quero a vingança! Eu quero ver este caralho na cadeia, brincando com um assassino todo sujo ou então, na repartição pública como engenheiro miserável, ou na cabana com os tártaros, que foderão seu rabo!

Hamlet: Não é bom vingar. Nos temos que amar os paneleiros todos, os assassinos e ladrões. Qualquer um deles – é do povo e tem o deus, no seu íntimo.

Fantasma: Não comes carne tu também?

Hamlet: Não, não como de princípio. Eu gosto apenas beber de vez em quando, porque somos um povo aberto e hospitaleiro, beber podemos de caralho. Muito mais que todos outros estrangeiros, judeus e monhes.

Fantasma: É uma moda de caralho. Alguma coisa ‘ta p’ra cona má no reino da Dinamarca... Quando eu era Rei, fodia todos os cabrões junto com o Lev Tolstoi. Tu entendes, não no sentido figural, é claro. Os paneleiros, odeio desde novo, mandava os p’ra prisa por amor à terra. Ohm, tempos, ohm a Dinamarca desgraçada.

Hamlet: Você, meu pai, já me fodeu a cabeça com fantasma. Algo blá – blá, mas com caralho não entendo, nem p’ra semana. Eu já lhe disse, que vingar não podemos, porque pessoas todas – irmãos são nessa terra, menos os judeus, tártaros, monhes, vizinhos que eu odeio. Mas em geral eu sou humanista, não sou como você, paisinho. Você apenas quer beber aguardente, foder mamãe coitadinha atras do forno, até que fumo o denuncia. Depois quer tomar um chá e atirar machado à avozinha paralisada, foder a pia com botas grossas, e outro tipo de bicheza, eu reparei em si. Porque tu obrigaste o seu irmão, lhe fazer o broche? Então, ele enlouqueceu, que caralho, não é de estranhar. E minha mãe, coitada, odiava vos me se, assim como eu odeio os judeus. À mi, o seu filho queridinho, amava e fazia mimos. Brincava eu com ela, de galinha e galo. Você, paisinho, vai rapidamente p’ra caralho para o seu mar, ou então o fodo com este pau. Até vou chamar o meu tio, e juntos nos vamos lhe dar uma porrada de caralho, até a Dinamarca estremecerá.

Fantasma: Filho da puta, bastardo de caralho! Assim p’ra pai! Dizer bojardas dessas de pachacha! Porque não afoguei te na minha sarapitola, quando você nasceu? Porque não te meti com a cabeça no cu e não estrangulei te? Uma família de merda! Você me paga!
(Fantasma afoga-se no mar).

Hamlet: Paisinho de caralho, fodeu meu cabeça toda. Vou até um bar nas proximidades e bebo um pouco de champanhe, porque na boca, parece que mijaram gatos e sem querer eu toco com a língua áspera os dentes quentes...
(Hamlet vai embora, as focas uivam, pássaros gritam, mar faz o barulho).

Segundo Acto

No palco, num dos lados está o piano “Steinway”. Em cima dele uma lata de sardinha portuguesa. No meio do palco, fica uma poltrona russa, desprovida do qualquer sentido de estilo. Em cima da poltrona – um escudo nacional. Figura de um urso com foice e balalaica. Isso simboliza o gosto por trabalho e ausência completa dos complexos, do bichano. A Gertrudes, a mãe do Hamlet, fica sentada na poltrona e borda a camisa russa. Ela canta canção, a “Kalinka”. Sem nenhum barulho, com passos abichanados, entra o Cláudio, o tio larilas do nosso príncipe.

Cláudio: Hoje, eu passava na praia, com seu filho bonitinho. Ofereci um saboroso doce p’ra ele, não quis levar, cabrão.

Gertrudes: Engraçadinho, meu deus...

Cláudio (fala com seus botões): Eu vou o foder. (para Gertrudes) O doce Chupa – chups é de caralho saboroso.

Gertrudes (com carinho): Brincalhão...

Cláudio: Tem cá um cheirete, perece que alguém cagou recentemente! Abrem as janelas, brutamontes, para que saísse o cheiro feio.
(Aparecem dois brutamontes, vestidos de camisas russas e botas pretas, abrem a janela, que serve de entrada de momento, para o Fantasma).

Fantasma: Ah, filhos da puta! Todos tirem calças e fiquem na posição do cão! Agora chegou o vosso fim, cabrões, apaguem a luz, mações de caralho, ou algo parecido.
(Cláudio, Gertrudes e brutamontes rapidamente seguem as ordens do Fantasma, que voa pelo gabinete e ri-se de maneira bem selvagem).

Cláudio: Meu fantasma, nos não fazemos nenhuma merda. Sentimos ódio e desprezo aos judeus todos e mações, e hino nacional, tocamos todos dias à balalaica, em coro. Aos judeus e monhes nos inspiramos medo, nosso prestígio cresce todos os dias, a porcentagem de gordura na manteiga aumenta, fortemente. Os brutamontes ficam satisfeitos, possuem goelas bem cheinhos. O número dos paneleiros diminuiu, trabalham todos eles nas machambas de Chimoio. As lésbicas mandadas foram para Bilibiza.
(Entra o Hamlet, ele está bêbado p’ra caralho. Numa mão tem o pau, na outra garrafa de champanhe).

Fantasma: Olhe, filho são judeus e mações! Tu fode os com pau no fígado e rabo, depois me contas. Algo não é claro?

Hamlet: Paisinho, tudo será na maior, não é preciso empurrar.
(Hamlet fode todos com o seu pau: o escudo do urso, depois mete o champanhe e as sardinhas portuguesas dentro do piano. Fode o piano com o pau. Piano zumbe).

Fantasma: Meu filho, aquele é piano, não são nem judeus nem mações, não é preciso fode-lo. Paguei o em divisas.

Hamlet: Eu quero, mas é foder na boca o piano, as divisas e todos os judeus.
(Hamlet fode o Fantasma com o pau. Fantasma cai. No chão ficam estendidos os corpos, fodidos pelo Hamlet. Dentro do piano, sardinha portuguesa nada em silêncio. Entra o Sigmund Freud*. Seus óculos brilham, ocultamente no escuro).

Hamlet (devagarinho começa ficar sóbrio): Vamos fazer balanço. Fodi o pai. Fodi a mãe com o tio. Fodi mobílias do valor inestimável, escudo nacional fodi também. Só vejo morte, desgraça. No vou mais beber, embora que alternativa inteligente para isso? Todos os sonhos foderam-se. Ah, puta da Dinamarca...

Hamlet rasga o seu colete, música toca baixinho, uma voz agradável canta a “Kalincka”. Sigmund Freud aproxima-se ao Hamlet, pica seu rabo com seringa e leva o consigo para o manicómio.
No palco aparecem sete marinheiros, vestidos com horríveis paletós pretos. Canção “Kalinka” aumenta da intensidade. Acompanhados pela música alegre da “Kalinka”, os marinheiros dançam no palco.

O pano da boca se fecha.

Fonte: http://www.ultima.te.ua/hamletua/

Nota sobre o autor

Oleksander (Les’) Podervyanskiy nasceu aos 3 de Novembro de 1952 em Kyiv (Kiev). Em 1976 foi graduado pelo Instituto de Belos Artes de Kyiv. Desde 1980 é membro da União dos Pintores da Ucrânia. Especialidades: design teatral, gráfica.
Exibições mais famosos, onde Les Podervyanskiy participou como pintor (pessoais e colectivas): «Art Expo-2000», Nova York; «Lazarro Signature Gallery», Stoughton, Wisconsin, EUA (1999); Exibição de Arte Moderna, Galeria da Arte de Kyiv, Kyiv (1995); Galeria «Glasnost», Nuremberga, Alemanha (1991); «Modern Ukrainian Art», Centro Cultural de Marsvinskholm, Isted, Suécia (1990); All-Union Exhibition, Manezh, Moscovo, Rússia (1980).
Os seus quadros encontram-se em colecções privadas na Ucrânia, Alemanha, Estados Unidos da América, Israel, Grã Bretanha, Rússia e Suécia. Um dos seus quadros, “Guerreiro, morte e diabo”, foi comprado em 2000 pelo actor americano Woody Alen.
Começou escrever no fim dos anos 70, até agora escreveu cerca de 50 peças. Autor do livro “Herói do nosso tempo”, Lviv, Editora Calvaria, 2001.
Vive e trabalha em Kyiv, Ucrânia.

O texto original de Hamlet em português:
http://www.mundocultural.com.br/biblioteca/shakespeare/shake_hamlet.PDF

*Sigmund Freud (Sigismund Schlomo Freud), nasceu aos 6 de Maio de 1856 em Freiberg, Morávia e morreu em 1939 em Londres, Inglaterra. Neurologista e psiquiatra austríaco, pai do psicanálise.

1 Comentários:

Blogger ALMARIADA said...

Muita raiva, não é? Muita coragem também para rir do horrível!

12:42 da tarde

 

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